ENQUADRAMENTOS DIFERENCIAIS DE VIOLÊNCIA: UMA ANÁLISE DAS AUDIÊNCIAS DE CUSTÓDIA EM SÃO PAULO

  • Laís Figueiredo Kuller UFABC
  • Mayara Gomes UFABC

Resumo

A partir da formulação de enquadramentos de Judith Butler, discutiremos neste artigo como episódios de violência narrados em Audiências de Custódia, em São Paulo, são tratados pela Justiça. Embora as audiências, de forma inovadora, possibilitem à pessoa presa narrar sua versão dos fatos a respeito da prisão, bem como episódios de intervenção violenta por ela suportados, têm-se que seu rosto – a representação de sua corporalidade – é reiteradamente esvaziado de humanidade. Argumentamos que tal tratamento se deve em razão dos enquadramentos diferenciais de violência que atuam para deslegitimar categorias inteiras de indivíduos – neste caso, os criminosos – de modo que a violência empregada contra os corpos de tais sujeitos é sistematicamente justificada, naturalizada e invisibilizada.

Biografia do Autor

Laís Figueiredo Kuller, UFABC
Graduada em Ciências Sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (2012). Mestre (2016) e doutoranda em Ciências Humanas e Sociais pelo programa de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC
Mayara Gomes, UFABC
Mestra em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (2017). Bacharela em Direito pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo (2013). 

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Publicado
2019-01-28
Seção
Dossiê: Enquadramentos de Estado e violações de direitos