LETRAMENTO POLÍTICO: POR UMA EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA DEMOCRÁTICA

Resumo

Com este artigo proponho uma discussão em torno da ideia de “letramento político” como base conceitual para uma educação linguística mais democrática no sentido de valorizar usos linguísticos, não necessariamente escolarizados do ponto de vista tradicional, mas que refletem identidades e subjetividades. Defendo, dentro do que estudos em Políticas Linguísticas Críticas vêm debatendo (SEVERO, 2013; IRVINE, 2008; MAKONI; PENNYCOOK, 2007) um olhar outro que se desprenda dos discursos historicamente legitimados, no sentido de favorecer uma educação (linguística) emancipatória, que promova a liberdade de grupos sociais historicamente subalternizados e submetidos a diversas formas de violência e preconceito. Proponho, inspirado por Agamben (2007), uma “profanação” quanto aos modos tradicionais de realizar uma educação linguística, levando em conta, obrigatoriamente as questões que mais tensionam as relações sociais na modernidade: raça, gênero, classe, questões migratórias, corporeidades, dentre outras. O objetivo, portanto, seria orientar a educação linguística de forma decolonial (QUIJANO, 2015) e interdisciplinar, promovendo o letramento político (COSSON, 2019) na sociedade, de forma que o que hoje é tratado como problema, fruto de uma mentalidade ainda colonial, seja vivido como característica e potencialidade de uma sociedade diversa e democrática.

Palavras-chave: Políticas linguísticas. Educação linguística. Letramento político.

Biografia do Autor

Alexandre Cohn da SILVEIRA, Universidade da Integraçao da Lusofonia Afrobrasileira – UNILAB/Malês

Doutor em Linguística. Curso de Letras, Instituto de Humanidades e Letras, Universidade da Integraçao da Lusofonia Afrobrasileira – UNILAB/Malês, São Francisco do Conde, Bahia, Brasil.

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Publicado
2020-12-30
Seção
Políticas linguísticas: visão panorâmica