O DISPOSITIVO DO REFÚGIO E AS POLÍTICAS LINGUÍSTICAS

Resumo

Este trabalho é fruto da minha dissertação de mestrado em que analisei a produção discursiva da subjetividade do refugiado no Direito Internacional e na legislação brasileira bem como sua relação com as políticas linguísticas informais no Brasil. Guiado pelos pressupostos teóricos do conceito de dispositivo (FOUCAULT, 1979; AGAMBEN, 2014), analisei como a noção de refugiado é operada por um dispositivo que visa modelar e controlar os sujeitos, isto é, o “governo dos homens”. Diante disso, as políticas linguísticas (CALVET, 2007; BIZON, 2013; DINIZ, 2012, ORLANDI, 2007) acabam figurando como alternativa de resistência aos efeitos de poder desse dispositivo ao propor ações acerca do ensino de português que visem o acolhimento de refugiados. Os resultados da pesquisa mostram que a subjetividade do refugiado foi (é) construída ao longo dos anos por meio de uma série de discursos, especialmente jurídicos, que visam a manutenção da soberania do Estado. Logo, as políticas linguísticas informais voltadas ao ensino de português para refugiados acabam constituindo um importante instrumento de resistência na medida em que visam acolher esses sujeitos possibilitando seus acessos a serviços básicos que garantem a manutenção de sua condição humana.

Palavras-chave: Refugiados. Políticas linguísticas. Dispositivo. Língua de Acolhimento.

Biografia do Autor

Cristian Edevaldo GOULART, Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

Mestre em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC - Florianópolis. Doutorando no Programa Pós-Graduação em Linguística – PPGLg – da mesma Universidade. Bolsista CAPES. Membro do grupo de pesquisa CNPQ – Políticas Linguísticas Críticas.

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Publicado
2020-12-30
Seção
Direitos linguísticos: abordagens teóricas e estudos de caso