Apresentação - nº 23

Resumo

DOSSIÊ:
ÁLVARES DE AZEVEDO: REVISÃO CRÍTICA

 

APRESENTAÇÃO

 

            Dentre os motivos que me fizeram organizar um dossiê sobre Álvares de Azevedo, dois considero de maior relevância: primeiramente, pelos 190 anos do seu nascimento; depois, pela necessidade e importância de trazer à luz novos olhares sobre sua produção literária.

            Chama a atenção o fecundo interesse pela obra do autor quase dois séculos depois de sua produção, que incluiu o livro de poemas Lira dos Vinte Anos, os contos de Noite na Taverna, o drama Macário e os escritos sobre as quais a própria crítica lança um olhar de dúvida, pela possibilidade de que tenham ficado inacabados, como O Livro de Fra. Gondicário, O Poema do Frade e O Condo Lopo. Estudos mais recentes têm se interessado, ainda, pelos seus Discursos, suas Correspondências e seus Estudos Literários, desvelando algumas camadas de sua literatura pela observação atenta ao olhar crítico do poeta, para além dos seus prefácios.

            Se a crítica produzida no início do século XX estava ainda aferrada às relações entre a ficção e a biografia do autor – incluindo aí as leituras fundamentadas nos aspectos sociais ou psicanalíticos (como se viu, por exemplo, em Sílvio Romero, Mário de Andrade, Motta Filho e Jamil Almansur Haddad) –, na crítica posterior vicejou uma abordagem mais predisposta a vincular sua obra a aspectos de ordem estética, como demonstrou Antonio Candido, que, embora apontasse alguma imaturidade em Azevedo, conferiu-lhe importância para o Romantismo brasileiro e para a modernidade, tendo sido “o primeiro, quase o único antes do Modernismo, a dar categoria poética ao prosaísmo cotidiano, à roupa suja, ao cachimbo sarrento; não só por exigência da personalidade contraditória, mas como execução de um programa conscientemente traçado” (2000, p. 161). Nesse sentido, amplo espectro da crítica moderna iniciou debates em torno do seu fazer poético: a dualidade; a ironia; o sublime e o grotesco; a transcendência; as tendências góticas, fantásticas e frenéticas; os comparativismos que levam em conta as referências explícitas e implícitas de outros escritores na obra do jovem autor; a sua recepção crítica.

            O dossiê aqui apresentado traz textos de pesquisadores contemporâneos acerca da produção de Álvares de Azevedo, atestando o forte interesse que o poeta romântico ainda desperta entre os leitores em geral e os críticos. Alguns artigos apresentam uma abordagem mais analítica, de leitura crítica/interpretativa de textos do autor, enquanto outros dão ênfase na recepção de autores em seus escritos, ou mesmo na recepção crítica de sua obra. O primeiro deles, de Antonio Donizeti Pires, é intitulado “Ó páginas da vida que eu amava”: Ariel e Caliban nos oito sonetos de Álvares de Azevedo. No artigo, Pires parte de uma apresentação mais ampla do escritor romântico, em franco diálogo com a crítica (inclusive a mais atual) para, então, fazer uma leitura dos oito sonetos que compõem a lírica azevediana, apoiando-se nos mitos de Ariel e Caliban (cujo fundamento está na peça A Tempestade, de Shakespeare), investigando como o poeta explora “ambos os mitos para demarcar e enfatizar, lírica, metafórica e alegoricamente, a antítese fundamental que avassala todo ser humano”.

            O segundo artigo, de Natália Gonçalves de Souza Santos, trata do Romantismo na província: vestígios alvaresianos na imprensa piauiense (1853-1912). A pesquisadora relata o desenvolvimento da imprensa em Piauí e o modo como a literatura romântica é divulgada no estado na segunda metade do século XIX e início do XX, contribuindo para a ampliação do conhecimento acerca da recepção crítica de Álvares de Azevedo, aqui filtrada pelo “ângulo da província”. Já o artigo seguinte trata das Ressonâncias de A Divina Comédia na obra de Álvares de Azevedo, da autoria de Alexandre Silva da Paixão e Alexandre de Melo Andrade. Os autores pontuam passagens da obra do autor onde aparecem referências ao clássico dantesco, seja de forma mais direta, citativa, seja de modo indireto, através de atmosferas poéticas e recriações de passagens da Comédia, uma e outra conferindo sentido à obra de Azevedo.

            Em Reflexão crítica e práxis poética: Álvares de Azevedo e o sublime no Romantismo brasileiro, João Pedro Bellas parte de uma categoria importante para o movimento romântico – o sublime –, intentando compreender aspectos caros da poética de Azevedo. O crítico absorve pontos fundamentais da historiografia do sublime, problematiza este conceito no Romantismo brasileiro e apresenta leitura do poema “Meu Sonho” e do conto “Bertram”, de Noite na Taverna, explorando as manifestações do sublime na obra do autor. Os dois artigos seguintes também se debruçam sobre o livro de contos Noite na Taverna. Em Os bastardos do mal de Noite na Taverna, Paulo Alex Souza faz uma leitura deste livro com vistas à compreensão dos “moldes” europeus nela presentes, principalmente levando em conta ideias de Mario Praz; Souza (re)interpreta o mal, a atmosfera noturna, os personagens sinistros e os ambientes sombrios, à luz do Romantismo europeu. Em Os espaços da cidade, da morte e da vida no capítulo Solfieri de Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo, Elton Jônathas Gomes de Araújo faz uma análise da “focalização do espaço” no conto “Solfieri”, remetendo-se diretamente à voz e à trajetória do personagem, sem desconsiderar o espaço enquanto local descrito.

            Na sequência, em A originalidade de Afrânio Peixoto, Ana Resende traz na íntegra o texto A originalidade de Álvares de Azevedo, de Afrânio Peixoto, publicado em 1931 na Revista Nova, atualizando-o, a título de introdução e apresentação, na medida em que busca uma compreensão do seu olhar crítico sobre a obra Noite na Taverna e suas ressonâncias em textos críticos atuais. O dossiê resgata e põe em circulação, assim, o texto de Afrânio Peixoto, tanto pela sua contribuição aos estudos do poeta quanto pelo diálogo possível com outros textos que compõem este volume da Travessias.

            Encerrando a seção temática, Júlio César Bastoni da Silva, em Álvares de Azevedo: novas perspectivas, apresenta uma resenha do livro “Cuidado, leitor”: Álvares de Azevedo pela crítica contemporânea, que consiste numa coletânea de textos críticos recém-publicados (2021), organizado por Andréa Sirihal Werkema. No livro resenhado, segundo nos diz Silva, “há uma busca multifacetada pelos vários traços de ligação ou notas dissonantes que o autor estabelece com a literatura sua contemporânea, aqui ou além-mar, sua relação com a tradição ocidental, bem como no que tange à abertura de caminhos em nossa série literária.”

            Na seção Vária há quatro artigos. O primeiro, Faces drummondianas de Deus, de Ivanildo Araújo Nunes e Christina Ramalho, busca a compreensão lírica de Carlos Drummond de Andrade sobre o ser do homem, através do semema e do tema Deus em três poemas de As impurezas do branco (1973). Ana Elisa Tonetti de Almeida e Cristiane Rodrigues de Souza aproximam o conto “Transmigração do defunto Arthêmio Augusto de Freitas” e o poema “Noturno da feira do Valongo”, ambos de Dantas Mota, refletindo sobre o espaço e outros procedimentos composicionais, no texto Dantas Mota entre a prosa e a poesia. Em Os heróis na Ilíada: entre a glorificação e o luto, Clarissa Loureiro traz reflexões sobre o heroísmo épico e sua repercussão na ética dos cidadãos gregos e no imaginário ocidental de todos os tempos. Fechando esta seção e o volume, o artigo Entre o querer e o deber na Exortação Apostólica do Papa Francisco Querida Amazonia, de André Silva Oliveira, analisa os verbos “querer” e “deber” em língua espanhola em Querida Amazonia, Exortação Apostólica do Papa Francisco, no tocante ao domínio semântico e à orientação modal.

            Agradecemos aos autores e às autoras que publicaram neste número. Que a obra de Álvares de Azevedo continue ganhando leitores e olhares críticos. E que a pesquisa no Brasil resista, sobreviva e floresça, imprescindível que é para o enriquecimento e os avanços da nação.

 

Alexandre de Melo Andrade

Publicado
2021-07-27
Seção
Expediente/Apresentação