PORTUGUÊS COMO LÍNGUA DE ACOLHIMENTO PELAS VOZES DE MIGRANTES DE CRISE

  • Carla Alessandra Cursino Universidade Federal do Paraná

Resumo

O objetivo deste artigo é propor reflexões sobre o conceito e as práticas didáticas de Português como Língua de Acolhimento (PLAc), subárea do Português como Língua Adicional (PLA) dedicada ao ensino-aprendizagem de português para migrantes de crise (CLOCHARD, 2007). Estudos recentes realizados por autoras brasileiras/autores brasileiros questionam a noção original de PLAc veiculada em Portugal por Ançã (2008), Grosso (2010), entre outras. Teóricas/teóricos do Brasil apontam o caráter neocolonizador (DINIZ, 2015) e assimilacionista (ANUNCIAÇÃO, 2017; 2018) da acepção portuguesa de PLAc, que alça o idioma português à condição fundamental para o êxito da comunidade migrante no território de acolhida, silenciando sua bagagem linguística, cultural e epistêmica em nome de uma pretensa integração social. Face a tais questões, conversei com 6 migrantes, de diferentes nacionalidades e trajetórias migratórias, a fim de compreender suas percepções sobre o ensino da língua portuguesa, no Brasil, em contexto migratório. Neste diálogo, percebo que, para o indivíduo migrante, tão importante quanto conhecer o idioma local - que lhe facilita o trânsito social - é a mobilização de suas línguas, culturas e conhecimentos na sala de aula de PLAc e para além dela, em verdadeiras ações de linguajamento (MATURANA, 1990; VERONELLI, 2019; MIGNOLO, 2020).

PALAVRAS-CHAVE: Português como Língua de Acolhimento; Português como Língua Adicional; migração de crise.

Referências

ANÇÃ, M.H. Língua portuguesa em novos públicos. Saber (e) Educar, n. 13, p. 71-87, 2008

ANUNCIAÇÃO, R.F.M. Somos mais que isso: práticas de (re)existência de migrantes e refugiados frente à despossessão e ao não reconhecimento. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada). Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), Universidade Estadual de Campinas, 2017.

__________________. A língua que acolhe pode silenciar? Reflexões sobre o conceito de “Português como Língua de Acolhimento”. In: BIZON, A.C.C; DINIZ, L.R.A. (Orgs). Revista X: Dossiê Especial Português como Língua Adicional em contexto de minorias. (Co)construindo sentidos a partir das margens. Curitiba: v.13, n.1, p.35-56, 2018.

ANZALDÚA, G. Boderlands / La Frontera: The New Mestiza. San Francisco: Spinters / Aunt Lute, 1987.

BAKHTIN. M. Teoria do Romance I: A estilística. São Paulo: Editora 34, 2015.

BIZON, A.C.C.; CAMARGO, H.R.E. Acolhimento e ensino da língua portuguesa à população oriunda de migração de crise no município de São Paulo: Por uma política do atravessamento entre verticalidades e horizontalidades. In: BAENINGER, R. et al. (orgs.). Migrações Sul-Sul. Campinas: NEPO/UNICAMP, 2018, p. 712-726.

CABETE, M. O Processo de Ensino-Aprendizagem do Português enquanto Língua de Acolhimento. Dissertação (Mestrado em Língua e Cultura Portuguesa). Lisboa: Universidade de Lisboa, 2010.

CANDIDE, C. Apprentissage de la langue: vers une lente émergence d'un droit. In: VEI Enjeux, n° 125, Paris, 2005.

CANAGARAJAH, S. Translingual practice: Global Englishes and cosmopolitan relations. New York: Routledge, 2013.

CÉSAR, A.; CAVALCANTI, M.C. Do singular ao multifacetado: o conceito de língua como caleidoscópio. In: CAVALCANTI, M.C.; BORTONI-RICARDO, S.(Orgs.). Transculturalidade, linguagem e educação. Campinas,SP: Mercado de Letras, 2007,p. 45-66.

CLOCHARD, O. Les réfugiés dans le monde entre protection et illégalité. EchoGéo, v. 2, 2007. Disponível em: http://echogeo.revues.org/1696.

COMITÊ NACIONAL PARA OS REFUGIADOS (CONARE). Sistema de Refúgio Brasileiro: desafios e perspectivas. Ministério da Justiça, 2016. Disponível em: http://www.acnur.org/t3/fileadmin/scripts/doc.php?file=t3/fileadmin/Documentos/portugues/Estatisticas/Sistema_de_Refugio_brasileiro_-_Refugio_em_numeros_-_05_05_2016. Acesso

em: 18 dezembro 2021.

CURSINO, C.A. Formação de professores numa perspectiva plurilíngue para o acolhimento linguístico de migrantes / refugiados. In: Calidoscópio, v.18 n.2, 2020, p. 415-434.

CURSINO, C.A.; ALBUQUERQUE, J.; FIGUEIREDO SILVA, M.C.; GABRIEL, M.; ANUNCIAÇÃO, R.F.M. Português Brasileiro para Migração Humanitária (PBMIH): reflexões linguísticas e pedagógicas para o ensino de PLE em contexto de migração e refúgio. In: RUANO, B.P.; PERIN, J.M.; SALTINI, L.M.L. (Orgs.). Cursos de Português como Língua Estrangeira no Celin-UFPR: práticas docentes e experiências em sala de aula. Curitiba: Editora UFPR, 2016, p.317-336.

DINIZ, L.R.A. Entre discursos mercadológicos e nacionalistas: apontamentos para o ensino-aprendizagem de português para falantes de outras línguas. Entremeios: Revista de Estudos do Discurso. Porto Alegre. v. 10, 2015.

DUBOC, A.P.M. Atitude decolonial na universidade e na escola: por uma educação outra. In: MASTRELLA-DE-ANDRADE, M. (Org.). (De)colonialidade na relação escola-universidade para a formação de professoras(es) de línguas. Campinas: Pontes, p.151-178, 2020.

ESCUDÉ, P.; CALVO DEL OLMO, F. Intercompreensão: a chave para as línguas. São Paulo: Parábola, 2019.

FLICK, U. Introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Editora Penso, 2013.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2020.

GROSSO, M. J. Língua de acolhimento, língua de integração. In: Horizontes de Linguística Aplicada, v. 9,n.2, p. 61-77, 2010.

GROSSO, M.J.; TAVARES, A.; TAVARES, M. O Português para falantes de outras línguas: o utilizador elementar no país de acolhimento. DGIDC, IEFP, ANQ, Lisboa, 2008.

____________________. O Português para falantes de outras línguas: sugestões de actividades e exercícios. DGIDC, IEFP, ANQ, Lisboa,2008.

hooks, b. Ensinando a transgredir. A educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2020.

LOPEZ, A. P. A.; DINIZ, L. R. A. Iniciativas Jurídicas e Acadêmicas para o Acolhimento no Brasil de Deslocados Forçados. In: Revista da Sociedade Internacional Português Língua Estrangeira, 2018.

MAHER, T. Do casulo ao movimento: a suspensão das certezas na educação bilíngue e intercultural. In: M.C. CAVALCANTI; S.M. BORTONI-RICARDO (orgs.), Transculturalidade, linguagem e educação. Campinas: Mercado de Letras, 2007, p. 67-94.

MALDONADO-TORRES, N. Sobre la colonialidad del ser: contribuciones al desarrollo de un concepto. In: CASTRO-GOMÉS, S.; GROSFOGUEL, R. (Eds.), El giro decolonial. Reflexiones para uma diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre Editores; Universidad Central, Instituto de Estudios Sociales Contemporáneos y Pontifícia Universidad Javeriana, Instituto Pensar, p.127-168, 2007.

MATURANA, H. La democracia como obra de arte. Bogota: Cooperativa Editorial Magisterio, 1990.

MIGNOLO, W.D. Bilinguajando o amor. Pensando entre línguas. In: MIGNOLO, W.D. Histórias locais / Projetos globais. Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2020, p.331-366.

OLIVEIRA, A. Processamento da Informação num Contexto Migratório e de Integração. In: GROSSO, M.J. (dir.) Educação em Português e Migrações. Lisboa: Lidel, 2010. Disponível em: http://repositorio.ipv.pt/handle/10400.19/539.

QUIJANO, A. Colonialidad y modernidad/racionalidad. Perú indígena, 29, p. 11-20, 1991.

SILVA, F.C..; COSTA, E.J. O ensino de Português como Língua de Acolhimento (PLAc) na linha do tempo dos estudos sobre o Português Língua Estrangeira (PLE) no Brasil. In: Horizontes de Linguística Aplicada, ano 19, n.1, 2020, p.125-143.

VERONELLI, G.A. La colonialidad del lenguaje y el monolenguajear como práctica lingüística de racialización. In: Polifonia, Cuiabá-MT, v.26, n.44, p.146-166, 2019.

Publicado
2022-07-05
Seção
Dossiê: Estudos Linguísticos