n. 21 (2020): Travessias Interativas → outubro/2020 - ESCRITORES E ESCRITORAS DE SERGIPE

ESCRITORES E ESCRITORAS DE SERGIPE

Apresentação

O número que ora apresentamos é uma edição comemorativa dos 10 anos de surgimento da revista de letras Travessias Interativas. O texto de apresentação do primeiro número, em 2011, dizia: “Resultado de um esforço de nossos editores, a revista surge para enriquecer a comunidade acadêmica com propostas, pesquisas, diálogos e interações”. Acreditamos ter cumprido tal propósito; de lá para cá, foram publicados 21 números, atinentes às duas grandes áreas (literatura e linguística), compostos de artigos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, além de resenhas de obras recentes e entrevistas com autores. Sempre no sentido de melhorar a qualidade do periódico, investimos em ampla divulgação, conforme atestam as bases de indexação; em diversificado conselho editorial; em suporte técnico e institucional; em processos de internacionalização; em dossiês diversificados, cuja parceria com pesquisadores externos foi fundamental; em constante alinhamento às diretrizes estabelecidas pelos órgãos responsáveis pela pesquisa no Brasil.

Sendo assim, agradecemos imensamente aos colegas que fazem, ou fizeram, parte dessa equipe, sem os quais seria humanamente impossível dar conta das demandas de publicação e de ajustes técnicos e editoriais. Não poderia deixar de mencionar, aqui, nomes de colegas que outrora compuseram a editoria comigo – Cláudia Parra, Leonardo Vicente Vivaldo e Valéria Castrequini –, que acreditaram neste projeto e investiram esforços na sua realização. Agradeço ao Stênio Santos, pelo suporte técnico nos primeiros números, e ao Júlio Gomes, atual técnico, responsável por processos de diagramação e publicações on-line. Por fim, agradeço ao colega Ricardo Nascimento Abreu, que apoiou a transferência do periódico para o Departamento da Letras Vernáculas da UFS no seu período de chefia, no primeiro semestre de 2018.

Para selar essa década de existência da Travessias, apresentamos um número sobre Escritores e Escritoras de Sergipe, que tem como objetivo dar visibilidade a autores e autoras do menor estado de nossa federação, onde está situada a universidade a que pertence a revista. Não é tarefa fácil trazer a público nomes de prestígio da literatura local, tendo em vista que Sergipe é terra de grandes escritores/as e não haveria possibilidade de contemplar uma extensa variedade. Porém, compreendemos que o recorte por ora apresentado pode contribuir com visão crítica acerca de escritores/as que aqui vivem/viveram e que, para além do regionalismo sempre citado nos casos das manifestações nordestinas, estabelecem diálogo com a literatura nacional, compondo o panteão de vozes significativas da literatura brasileira.

Na abertura da edição há um ensaio de Jackson da Silva Lima intitulado “Literatura Sergipana e seus primórdios (Presença da Protoliteratura)”; o ensaísta apresenta possibilidades de se compreender as primeiras manifestações literárias no estado de Sergipe, chegando até 1836 (ano em que ocorreu sua separação do estado da Bahia), quando a literatura ganhou impulso nos jornais. Lima expõe, a princípio, algumas possíveis contradições de Sílvio Romero na classificação dos grupos de poetas sergipanos, para depois deter-se no que chamou de Protoliteratura, dividida em dois aspectos: o de rotina (protoliteratura denotativa) e o especial (protoliteratura conotativa). Ao final do ensaio, constam sete Albores protoliterários (1590-1603), sendo três representantes da denotativa e quatro da conotativa. Agradecemos a Jackson da Silva Lima, grande estudioso da cultura, da história, do folclore e da literatura em Sergipe, pelo texto concedido.

Os nove artigos publicados fazem um duplo movimento, ora se debruçando sobre a análise direta das obras, ora discutindo a fortuna-crítica de seus respectivos autores, atendendo ao que Sílvio Romero entende como abordagem estética (no primeiro caso) e crítica literária (no segundo caso). O primeiro artigo, de Aruanã dos Passos, intitulado “Tobias Barreto: ‘Notas a lápis’ para um perfil literário e filosófico”, traça um histórico da trajetória do intelectual sergipano Tobias Barreto, apoiado pela identificação dos modos como Sílvio Romero participou da “edificação e ampliação das mitologias que envolviam as ideias e a personalidade combativa de Tobias”. O segundo artigo justamente trata de Sílvio Romero – expoente da crítica literária brasileira e considerado um de seus maiores polemistas; no texto, cujo título é “Um polígrafo invocado: Sílvio Romero e a crítica literária no Brasil”, Antonio Marcos dos Santos Trindade situa o escritor sergipano no cenário da crítica literária do século XIX. Ainda na perspectiva do discurso crítico de envergadura histórica, Rogério Rosa discute posicionamentos de João Ribeiro acerca do republicanismo no Brasil, tendo como referência seu livro História do Brasil: curso superior, no artigo “Embrião sentimental do republicanismo: A busca de João Ribeiro pelo espírito nacional brasileiro na primeira república”.

O texto seguinte, de Josalba Fabiana dos Santos, faz uma leitura da personagemdo conto “Maria Montez”, do livro Jeito de matar lagartas, do contista contemporâneo Antonio Carlos Viana, pela perspectiva dos processos de desumanização, conforme anunciado já no título: “O monstro como estratégia em ‘Maria Montez’, de Antonio Carlos Viana”. Também estudando a prosa de ficção contemporânea em Sergipe, Cristiane Rodrigues de Souza debruça-se sobre o romance Coivara de memória, de Francisco Dantas, tematizando questões de tempo e memória, e buscando aproximação com a obra Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo; trata-se de “Tempo e Memória em Francisco Dantas e Conceição Evaristo”.

Os próximos artigos se voltam para poetas sergipanos. No primeiro deles “Hermes-Fontes e as filiações possíveis: Um romântico tardio?” – Leonardo Vicente Vivaldo transcende a filiação comumente feita de Hermes-Fontes às poéticas simbolista e parnasiana, propondo uma leitura dos “vestígios de certas prerrogativas (neo)românticas em sua poesia”, intentando lançar luz sobre a obra do poeta, ainda à margem dos debates críticos. Na sequência, Juliana Freitas Calado Lira aborda “A poesia contemporânea de Iara Vieira: Uma leitura de A íntima humanidade”, traçando um perfil da poeta sergipana através da leitura de poemas da obra citada no título, percebendo nela uma das referências da poesia contemporânea, ainda que bem pouco conhecida fora do estado. A poeta Maria Lúcia Dal Farra, também contemporânea, é contemplada na sequência, com leitura da metalinguagem presente em seu Terceto para o fim dos tempos, no texto “A metalinguagem na poesia de Maria Lúcia Dal Farra”, de autoria de Joseana Souza da Fonsêca. Encerrando o número, Iasmim Santos Ferreira e João Paulo Santos Silva também dão passagem à obra de Jorge Henrique, poeta pouco conhecido, porém de voz firme e singular, no texto “O universo dos vocábulos vivos: O lirismo em Mutante in sanidade, de Jorge Henrique”.

Resta, ainda, agradecer aos/às articulistas que publicaram nesta edição – alguns/algumas sendo pesquisadores/as ligados/as à UFS, conforme era de se esperar pelo tema aqui proposto,  e outros/as pertencentes a  universidades fora do estado.  Esperamos, com o lançamento dessa vigésima primeira edição, comemorar não apenas a data importante associada ao surgimento dessas Travessias, mas a possibilidade de divulgar, de modo especial, algumas travessias construídas pela literatura em Sergipe.

Prof. Dr. Alexandre de Melo Andrade
Editor-Chefe

Publicado: 2020-11-10

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