<p><b>Apresentação</b></p>

  • Beto Vianna Letras - DLI/UFS
  • Luiz Rosalvo Costa Letras - DLI/UFS
  • Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz Letras - DLEV/UFS
Palavras-chave: Filosofia, Literatura, Interdisciplinaridade

Resumo

Para que pudéssemos apontar relações entre filosofia e literatura – razão de ser desta revista APalo Seco – foi preciso que se inventasse, no Ocidente, assentos marcados para esses modos não neces- sariamente distintos de falar e de ouvir. O texto literário chinês mais importante, pré-dinastia Qin, são as parábolas reunidas de Chuang Tzu, do século VI antes da era cristã. O texto é documento-chave da filo- sofia taoísta e precursor do zen-budismo. Podemos também pensar no vigor poético (e mítico) da língua entre os Mbyá-Guarani, sugerindo a Pierres Clastres, em A sociedade contra o Estado, que não há, para os ameríndios, linguagem poética, pois sua linguagem já é “um poema natural em que repousa o valor das palavras”. Em seu Oriki orixá, Antônio Risério vai mais longe ao nos dizer que pode haver povos sem deuses (a exemplo dos Kisêdjê, do Alto Xingu – mas há outros) e não existir, no planeta, um só povo sem poesia.

Entre nós, contudo, aprendemos, desde Platão, que há só uma história digna de ser contada, e com Kant, que olhar para o conhecimento e a moralidade depende de princípios universais, asse- gurando um lugar exclusivo para a filosofia, anterior às culturas. Mas somos bons, também, em de- saprender os reflexos mais ferozmente condicionados. Desconfortáveis na própria seara da filosofia, de Nietzsche a Heidegger, de Sartre a Deleuze (para ficar nos machos brancos da chamada filosofia continental), muitos redescobriram o afazer literário não como aproximação a um gênero distinto, mas no exercício de escutar (ou ler) vozes nunca antes escutadas ou lidas. Ou ainda, como queria Richard Rorty, a filosofia como “política cultural”: como algo esperançosamente melhor (e não Bom, ou Verda- deiro) a dizer. Nada que a literatura não saiba oferecer.

Nesta edição de número 12 da A Palo Seco, o fio condutor é justamente essa “virada literária” em filosofia, ainda que, fazendo jus aos propósitos bilíngues da revista, longe de puxar toda a brasa para a sar- dinha filosófica, ela faça coro com as vozes consideradas nativas na literatura. Assim é que “Da alteridade ao engajamento do autor”, o primeiro dos textos aqui reunidos, se embrenha nesse território propondo uma reflexão sobre o ético e o estético a partir das ideias de autor, autoria e engajamento. Tomando, de um lado, proposições de Bakhtin e Volóchinov e, de outro, a obra de Sartre, o artigo de Fábio Luiz de Castro Dias empreende uma interpretação dialógica por meio da qual, na busca de aproximações entre as refe- ridas ideias, se evidencia como questões caras à literatura e à filosofia podem se encontrar. A interface de filosofia e literatura a partir do problema do engajamento é um dos focos também do artigo que vem na sequência, “A inter-relação entre filosofia e literatura”. Neste caso, o propósito do texto assinado por Rafael Bassi é comparar concepções literárias de Cortázar expostas em Alguns aspectos do conto com a ideia de engajamento presente em Sartre para, a partir dessa comparação, discutir a relação entre escrita e autoria.

O texto subsequente, “A cidade como espaço para a liberdade”, de Lwdmila Constant Pacheco, toma o personagem Luís da Silva, do romance Angústia, de Graciliano Ramos, para, no contrapelo da per- cepção do próprio personagem (invisibilizado, corrompido e humilhado), propor, numa perspectiva que articula o existencialismo e a psicanálise, uma leitura na qual o ambiente urbano é pensado não como espaço de degradação, mas de libertação.

Em “O aperfeiçoamento moral em Lolita”, Gilberto de Oliveira Neto traz-nos o romance de Na- bokov, na conduta do personagem-narrador, como uma contribuição da imaginação literária, à semelhan- ça de um certo entendimento da filosofia (como, por exemplo, o de Deleuze), para o modo como lidamos com os limites do moralmente aceitável. Citando Sartre (sobre um personagem de Dostoievski), Oliveira Neto lembra-nos que o comportamento do personagem não provoca a indignação ou a estima do leitor, mas serve-se delas, forçando-nos a repensar, ou a viver, “um outro que também nos constitui” (p. 41).

O artigo de José Amarante, o quinto da sequência, nos apresenta a Ausônio, um poeta latino do século IV cuja obra comporta uma produção de matiz pagão em que se destacam conjuntos de epigramas e de epitáfios. É sobre esses epigramas e epitáfios que Amarante se debruça para investigar como neles se realiza o tema da bela morte, em particular no que se refere ao universo feminino. Para esse fim, o artigo apresenta a versão de Ausônio para as mortes de Anícia e Políxena, mostrando como, no que se refere a esta última, a versão de Ausônio, afastando-se da versão de Eurípedes (na qual a morte da personagem é tratada de forma heroica), desenha a morte de Políxena como uma morte marcada pelo ultraje.

A sessão de artigos termina com a dobradinha alemã Hesse (por meio do romance Damien) e Niet- zsche (principalmente em seu O nascimento da tragédia) em “Entre a modernidade e algo por vir: Herman Hesse leitor de Friedrich Nietzsche”, de Jivago Gonçalves. O autor argumenta que no texto de ambos – do literato e do filósofo – converge a impaciência com os pressupostos da chamada modernidade: o sujeito apartado do mundo externo, a verdade como correspondência com a realidade, e a razão como seu guia seguro, contrapondo, a tais diacríticos, a noção de autocriação.

A sessão de traduções abre, como terminou a anterior, com vozes germânicas que ecoam as gre- gas. O poeta Rui Rothe Neves verte, para o português, “Heimkehr des Odysseus” (“Volta de Odisseu ao lar”), de Thomas Rosenlöcher. Ambientado na Alemanha Oriental (ou na história da literatura alemã oriental) pós-guerra, o retorno do Odisseu a Ítaca ressurge, pelo poema, na “literatura dos destroços” (Trümmer-literatur), de autores retornados do exílio ou da guerra, tematizando “as perdas, os destroços, o fim da Alemanha (e, em certa medida, da Europa) tal como a conheceram” (p. 78).

Em “Por que se diz ‘fábula’ e Sobre os diversos nomes dos deuses”, a segunda tradução desta edi- ção, Victor Campos Mamede de Carvalho nos apresenta aos dois primeiros textos do Segundo Mitógrafo do Vaticano, que fazem parte do conjunto de obras descobertas por Angelo Mai, prefeito do Vaticano em 1831, e editadas como Classicorum Auctorum e Vaticanis codicibus editorum tomus III. Acompanha a tradu- ção um texto introdutório em que a obra e suas traduções anteriores são contextualizadas. Fecha esta edição de A Palo Seco a primeira tradução para a língua portuguesa (e, nos informa o autor, a primeira do mundo realizada lipogramaticamente) do quarto livro (Ausente D) da obra De aetatibus mundi et hominis(Das idades do mundo e da humanidade), atribuída ao escritor latino Fulgêncio. A tradução, que também conta com um texto introdutório, foi feita a partir da edição fixada por Rudolf Helm (1898).

Esperamos enfim, leitores e colaboradores, que, mal parafraseando Belchior em seu próprio “A Palo Seco”, esses cantos tortos aqui reunidos cortem, feito faca, alguma carne para todos nós.

Os editores
Beto Vianna
Luiz Rosalvo Costa
Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz

Publicado
2020-01-20
Seção
Apresentação