Apresentação

  • Fernando de Mendonça Universidade Federal de Sergipe - UFS
Palavras-chave: Filosofia, Literatura, Interdisciplinaridade

Resumo

Apresentação

 

A pintura que encapa esta nova edição d’A Palo Seco, mais do que uma tentativa de representação ao nosso atual sumário, denota um estado de síntese para com a realidade que assolou o mundo neste ano de 2020. Night in Saint-Cloud, tela datada de 1890[1], concentra uma situação de espírito vivenciada pelo expressionista Edvard Münch, naquele exato período e em relação a um contexto de isolamento que também era causado por uma crise na saúde europeia. Melhor contextualizando, desde 1889, Münch encontra-se em Paris, apoiado por uma bolsa do estado norueguês, vendo-se obrigado a sair da cidade, quando, em dezembro daquele ano, estourou um surto de cólera. Seu deslocamento para a comuna de Saint-Cloud imediatamente passa a ser retratado em uma série de obras que trazem ao primeiro plano uma atmosfera de confinamento, com personagens encerrados em interiores de janelas fechadas e opressoras, sendo esta que escolhemos para abrir nossa edição, a primeira tela da referida fase de Münch e a mais representativa junto às intenções deste periódico.

Dar corpo ao 13º volume de nossos escritos, em meio a uma crise mundial de saúde e a uma brutal adaptação de rotinas e interações (com a sociedade, com o conhecimento, com a compreensão de espaço e tempo), coloca-nos em posição especular à que se retrata no centro da pintura de Münch. No personagem que absorve a noite e se torna sombra de si mesmo, somos também provocados – seja pela COVID-19 ou por direcionamentos políticos em vigor que insistem em nos isolar, a nós, que insistimos pela filosofia e pela literatura – a dialogar com uma humanidade contemporânea encavernada, condenada às sombras, mas jamais desistente em suas motivações de continuidade. Se também continuamos nossos trabalhos em meio a tão conturbado cenário, fazemo-lo por convicção de os dias e as noites de 2020 prosseguirem confirmando a necessidade humana da introspecção, do autoquestionamento e de sua autorrepresentação. Muito se tem dito sobre o valor das artes nestes tempos, das estéticas midiáticas subsistindo não apenas como refúgio, mas como ponte ao Outro, renovando valores e usos do pensamento. Em certa medida, não houve no mundo quem não provasse, neste ano, de uma inclinação filosófica, seja pela manutenção de perguntas inesgotáveis, seja pela consciência e o desafio de se reencontrar em meio a rompimentos irreversíveis.

Na duplicação dos espaços que emana em torno desta melancólica figura do pensador, como aparece atualizada em Münch, reencontramos igualmente os nossos propósitos. Assim como a janela parece crucificar o espaço, materializando ecos de uma encruzilhada existencial, o GeFeLit – Grupo de Filosofia e Literatura, também localiza no encontro de dois pensares, o filosófico e o literário, uma necessária interseção para continuar ressignificando as possíveis maneiras de ver e se relacionar com o mundo. Com mais de uma década de atividades e uma contínua renovação de seus integrantes, este grupo mantém os impulsos que o fundaram, entendendo que na encruzilhada onde se encontram a Filosofia e a Literatura também se colocam formulações que ajudam, não apenas a enxergar o outro lado (o de fora ou de dentro), mas a tratar espíritos adoecidos, como na emblemática imagem de uma ‘homeopatia da angústia’, receitada pelo fenomenólogo Gaston Bachelard, em sua Poética do Devaneio (1961).

Ainda que não se trate de uma edição temática, não por acaso, vários dos textos deste volume recorrem aos imaginários da solidão. Por meio de personagens e narrativas, ou mesmo por uma investigação primeva do ato filosófico, este que coloca o ser em diálogo com silêncios que dizem muito, uma espécie de linearidade se erige na conexão dos onze artigos e das duas traduções que dão forma a presente coletânea. No que importa uma enumeração de todas as valiosas contribuições aqui perpetuadas, como dispomos a seguir:

No artigo que abre nossas leituras, Paulo Junior Batista Lauxen investiga “A Atitude Filosófica de Walden, de Thoreau”, partindo do quadro conceitual de Pierre Hadot para concluir que, em Thoreau, a literatura se faz filosofia, pois a obra Walden é ao mesmo tempo um discurso filosófico e um projeto poético que exercita espiritualmente o seu autor a viver melhor e em direção aos outros. O paradoxo entre o isolamento poético de Thoreau e sua abertura para o mundo natural recupera princípios que jamais deveriam se dissociar da práxis filosófica, desde a Antiguidade direcionada para a vida prática e a convivência em sociedade. O aprimoramento de espírito trazido pela postura introspectiva revela-se em sua urgência de resgate, respondendo inclusive aos sintomas do mundo pandêmico que inicialmente evocamos e reposicionando a convergência entre Filosofia e Literatura como uma potência do bem viver, do que é ser realmente saudável.

Seguem-se, então, dois artigos que exploram as ressonâncias de palavras originárias, fundadoras, seja no mais tradicionalmente reconhecido contexto grego, onde Rodrigo Rizerio de Almeida nos orienta “Para uma Ontologia Poética ou Poética Ontológica: a unidade temporal dos estilos”; como no ainda pouco desbravado, dentro de um diálogo com as filosofias ocidentais, contexto africano, onde Tiganá Santana Neves Santos aborda as “Sentenças Proverbiais Africanas: a um só tempo, literatura, filosofia e acontecimento”. Trata-se de dois textos que, cada qual a sua maneira, trazem à tona o caráter filosófico da palavra poética dentro de dimensões ontológicas embasadas em tradições milenares. Como bem lembra o último texto enumerado, não se pretende aqui discussões de ordem ‘etnofilosófica’, mas problematizações em torno de uma expansão dos cânones, compreendendo-se que o pensamento humano transcende fronteiras e demarcações coloniais.

Nesse sentido, os três artigos desta edição que discutem um corpus localizado na literatura brasileira e avançam nas contribuições analíticas de textos literários por meio de perspectivas filosóficas, reconstruindo uma cronologia nacional que transita entre os séculos XIX e XX, vêm na sequência; todos eles também partilham de um interesse pelo poder instaurador da palavra, capaz de redimensionar costumes e preceitos historicamente entranhados nas estruturas sociais. Os estudos machadianos de Iasmim Santos Ferreira, com sua reflexão metapoética “Sobre a Malévola Faculdade: a palavra”, tocam em pontos cruciais para que repensemos nossa responsabilidade diante dos usos da linguagem em meio a agudas transformações nos mecanismos informativos. Por sua vez, Fernando Pisoni Zanaga, em “Poder-saber e a Cor: as crônicas de Lima Barreto e os discursos racista-científicos no Brasil do início do século XX”, também denuncia os riscos dos discursos, inclusive filosóficos e/ou literários, quando estes não confrontam a manutenção de intolerâncias e preconceitos que se materializam por meio da palavra. Ambos os textos advogam uma necessária tomada de consciência que bem orienta ao cuidado com a linguagem, ainda mais se considerarmos a atual retomada mundial de perspectivas fascistas e autoritárias. Já, em “O Habitus Bíblico de Graciliano Ramos”, Cosme Rogério Ferreira desenvolve uma abordagem comparatista à mais expressiva produção romanesca graciliânica, toda ela pautada por uma angustiada solidão que também não se pacifica com as crescentes injustiças do mundo. Os intertextos analisados junto à literatura bíblica na obra de um autor ateu, redirecionam o sumário desta edição aos desdobramentos do isolamento, assim como a busca pela palavra que nos religa ao sagrado.

Em seguida, alinham-se mais três artigos pautados por um corpus que toca às margens do existencialismo fantástico: “O Devaneio Poético em  A casa de Asterion e A Escrita de Deus: reflexões filosóficas na solidão de um cárcere”, em que Clarissa Loureiro Marinho Barbosa e Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz ofertam interpretações fenomenológicas à inesgotável obra borgeana; “Simulacro, Desejo e Ética: aproximações entre Slavoj Zizek e A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares”, em que Isabela Cim Fabricio de Melo igualmente redireciona luzes a este marco da literatura latino-americana dentro de um contexto crítico próximo ao psicanalítico; e “A Construção Narrativa em Abismo, em O Lobo da Estepe”, em que Geyvson Cardoso Varjão e Fernando de Mendonça propõem uma leitura baseada na técnica da mise en abyme e em suas múltiplas variações especulares, diante de um dos mais emblemáticos romances de Hermann Hesse.

Os últimos dois textos da seção de artigos voltam-se para momentos e movimentos do pensamento estético/histórico, reforçando a necessidade de áreas fundamentais às Humanidades, como a Educação e o Direito, também não se afastarem da consciência filosófica. Christine Arndt de Santana e Nívea Maria Dias, em “Teatro, Filosofia e Educação: o discurso sobre a poesia dramática”, alicerçam os pensamentos na obra poética de Diderot para refletir as possibilidades de alcance junto a uma felicidade coletiva, sábia e virtuosa, que necessariamente demanda exercícios de ordem estética. Também preocupado com as formas de constituição da intelectualidade na vida social, Jean Felipe de Assis, em “Hegel e a Ironia Romântica: racionalidade, direito e saber”, desenvolve uma série de considerações aos Cursos de Estética hegelianos para identificar como a Filosofia contribui na prática científica, histórica e política de uma sociedade.

A seção bilíngue de traduções que encerra este volume, com duas versões para o português de textos originários de Galeno e Kant, outrora inéditos em nosso idioma, não deixa de também guardar relações com a linearidade lógica que ordena toda a edição. O texto “Que o Melhor Médico é Também Filósofo”, de Cláudio Galeno, com tradução e apresentação de Rafael Carvalho, aos moldes de tantas saudáveis exortações filosóficas diluídas em toda a revista, desde aquele primeiro artigo sobre Thoreau, curiosamente, também elogia ‘o desprezo pelas riquezas e o cultivo da moderação’. De outra parte, “Sobre o Fogo”, oriundo da fase pré-críticas de Immanuel Kant, com tradução e apresentação de Klaus Denecke Rabello, apesar de apresentar um caráter mais eminentemente científico, não deixa de nos devolver um elemento natural (o fogo) que é miticamente associado à vida humana.

Com o intuito de não deixar a chama apagar, nós d’A Palo Seco, concluímos assim mais uma edição que já guardamos como memorável, especialmente diante da época que atravessamos. Somos profundamente gratos a cada colaboração que deu forma a este número, de articulistas a tradutores, de pareceristas a colaborações técnicas em revisão e diagramação. Encerramos o ano de 2020, dedicando este volume à memória de cada pessoa vitimada pela COVID-19, para além de nossos círculos de amizades e parentescos, seja junto a cada integrante do grupo GeFeLiT, como a cada leitor(a) da revista. Para que as nossas vidas e as nossas mortes não sejam reduzidas a números, mas que se resgatem em seu valor singular de experiência, nos pensamentos e nas narrativas que nos formam e que nos confirmam seres dotados de subjetividade, desejamos uma excelente e inquietante leitura.

 

Fernando de Mendonça

 

[1] Disponível em: <https://www.munchmuseet.no/en/edvard-munch/>

Publicado
2021-01-07
Seção
Apresentação