<i>Unde idolum</i>, de Fulgêncio (Sobre a origem dos ídolos)

  • Sílvio Bernal Universidade Federal da Bahia/UFBA
  • José Amarante Universidade Federal da Bahia/UFBA

Resumo

Embora sua produção não registre apenas trabalhos em mitografia, Fulgêncio é conhecido como o mitógrafo, muito provavelmente em função da boa recepção de sua obra Mitologiae, não só no período carolíngio, como também em outros momentos do período medieval. Confundido inicialmente com São Fulgêncio, bispo de Ruspe, a pequena cidade da província romana Bizacena (na África, onde hoje é a Tunísia), e nascido também em Cartago, entre finais do séc. V e início do séc. VI, Fabius Planciades Fulgentius é um escritor latino de transição – do final da Antiguidade tardia e início da Idade Média – cuja biografia ainda nos é bastante obscura: muito do que dele conhecemos se deve a referências incidentais que se registram em sua obra, especialmente no prefácio do Livro I das Mitologiae. Carecem também de estabilização, mas menos que antes, as referências relacionadas ao seu corpus bibliográfico, incluindo aí as controvérsias relacionadas à autoria de certos textos e a sua datação.Autor ainda pouco explorado, e nada estudado no Brasil, Fulgêncio registra em sua obra aspectos do período de transição entre a Antiguidade e o Medievo, ou apresenta, conforme nos lembram Wolff e Dain, “Uma maneira de exprimir a passagem do paganismo ao cristianismo” (2013, p. 17), nos deixando conhecer a visão cristã sobre o mundo antigo, notadamente, no caso das Mitologiae, uma leitura cristã dos mitos pagãos, que resulta na perspectiva de uma humanidade regenerada. Como nos lembram Wolff e Dain (2013), «ele é o primeiro cristão a tomar a mitologia como tema central, e isso dentro de uma perspectiva que não a da crítica sistemática», o que torna a sua obra oportuna, na medida em que nos apresenta registros da forma como os primeiros cristãos viam o conteúdo mitológico pagão.Lido por autores da época carolíngia e tendo atravessado a Idade Média com edições manuscritas regulares, além de ter servido de base para a trilogia Mitografi Vaticani, a partir da primeira edição de Milão, de 1498, observa-se uma difusão considerável das Mitologiae, o que, segundo Wolff e Dain (2013), faz com que não seja mais possível identificar quais teriam sido precisamente os seus leitores. Perdendo fôlego na Renascença, pelo que se observa nos quatro grandes mitógrafos do período (Pictor, Giraldi, Cartari e Conti), o interesse por sua obra começa a se renovar a partir do século XIX, com os trabalhos germânicos de filologia. Mais recentemente, Martina Venuti (2009) faz uma nova revisão dos manuscritos, corrigindo e completando a história da tradição manuscrita da obra de Fulgêncio.O autor vem sendo traduzido para as línguas modernas, embora ainda sejam raras as traduções, e nenhuma de suas obras encontra-se traduzida para o português. Para esta tradução do mito que abre o Livro I das Mitologiae, estamos utilizando, como fonte básica do texto latino, a única edição moderna completa das Mitologiae, a de Helm, de 1898 e reproduzida em 1970 com um adendo bibliográfico de J. Préaux, em Stuttgart, numa edição da Bibliotheca Teubneriana.
Publicado
2015-11-30
Edição
Seção
Traduções