<i>Todo Risco, o Ofício da Paixão</i> de Damário da Cruz

  • María Luz García Lesmes Universidade Federal da Bahia/UFBA

Resumo

1. Introdução:

Os poemas que apresentamos na presente secção de tradução pertencem ao livro Todo Risco, o Oficio da Paixão, publicado em 1993 pela Editora Versarte, lançado posteriormente em 2012 pela Fundação Pedro Calmon. A obra reúne 27 poemas do poeta baiano Damário da Cruz, escritos entre 1968 e 1993. No livro, podemos apreciar tanto poemas que mostram um jovem poeta influenciado pelas questões políticas e sociais do seu tempo como poemas de uma consciência humana comovedora.

Damário da Cruz nasceu no dia 27 de junho de 1953, no bairro de Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, Bahia. Faleceu no dia 21 de maio de 2010, vítima de um câncer de pulmão, aos 57 anos em Salvador. Foi poeta e fotógrafo, graduado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, pós-graduado em Comunicação e Mercado pela Universidade de Salvador e Especialista em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo. Em 1989, Damário chegou a Cachoeira, cidade do Reconcâvo Baiano, e apaixonado pela região, comprou um sobrado em ruínas no ano de 1991. Tal sobrado viria contribuir com a cultura do local, quando criou o Pouso da Palavra, no ano 2000, com o intuito de abrigar variadas linguagens artísticas.

Os livros publicados em vida por Damário são quatro – Vela branca (1973), Todo Risco, o Oficio da Paixão (1993); Segredos da Pipa (prêmio Banco Capital, 2003); e Re(sumo) (2008) – e, finalmente, Bem que te avisei (2010) livro póstumo. A sua poesia apresenta concomitâncias com as tendências poéticas então vigentes, inscrevendo-se numa linha de poesia vital, mas também reflexiva, que confere a sua voz um caráter muito pessoal. Nessa época, as artes plásticas, o cinema e a música popular já tinham passado pela “renovação” dos anos 80. Enquanto isso, os novos poetas, herdeiros das tradições clássica e moderna das líricas brasileira e estrangeira, preferem se afastar da poesia marginal de décadas anteriores, por meio da escolha pelo poema curto e pela adoção de uma linguagem informal, lúdica, nesse contexto, o poeta procura uma poesia mais reflexiva, sem se afastar das emoções do mundo.

Frequentemente, Damário apresenta a exposição do poema como um silogismo. Como se estivéssemos ante uma pergunta: o que nos faz homens? A possibilidade de arriscar (Todo Risco); o que é a palavra? É uma arma preparada (Ofício da Paixão); a vida, que faz? Teima em ser (Armadilha).Os temas mais frequentes encontrados no livro de poemas Todo Risco, o Oficio da Paixão são: a vida, o passar do tempo, o amor, a amizade, e a metapoesia, o processo de criação ou a relação do homem com a linguagem. A isca que acende o poema é a realidade, o momento cotidiano, a vida. Por isso, vemos que Damário é um poeta vital, do eros, do desejo. A fuga, a escolha, a perda, a solidão são outros motivos que aparecem recorrentemente em seus versos.

O amor leva, dentro de si, a semente da temporalidade, pois o amor não é eterno, está condenado a perecer, e esta realidade faz dele uma fonte de felicidade fugitiva e dolorosa, porque tudo é passageiro, como o tempo. O devir temporal, com sua consequência irreversível – a morte, é um dos temas universais da sua poesia. O fluir do tempo é uma preocupação capital em torno da qual giram muitos dos poemas de Damário. A polissemia e os jogos de palavras se confundem no universo cultural cheio de referências baianas, em particular do Recôncavo. O ritmo dos versos evoca, às vezes, a musicalidade da frase rápida, cortada, quebrada e circular, como cantada em um samba de roda.

Levamos em conta os seguintes elementos que constituem o que chamamos poesia: melopeia (qualidade pela qual as palavras, além de ter significado, têm uma determinada musicalidade); fanopéia (projeção das imagens na imaginação) e logopéia (o baile do intelecto entre as palavras e seus hábitos de uso), considerando este último como foi visto por Pound (1972, p. 39) como “[...] o único verdadeiramente intraduzível” ainda que possa ser “parafraseado”.

Publicado
2015-11-27
Edição
Seção
Traduções