Apresentação

Maria A. A. de Macedo

Resumo


No início do nosso século vemos surgir uma tendência que, sob a forma de uma revisão do conceito e da função da literatura, irá estender os estudos da literatura para além de uma abordagem essencialista. Essa tendência visa à reconsideração da visão até então vigente da literatura como um conjunto de monumentos literários desafiando os séculos que o atravessam. Naturalmente, muitos es- critos desafiam essa reconsideração pela sua universalidade; mas força é também estudar a literatura como uma manifestação de um espaço, de uma sociedade, trazendo-a para a história, reabilitando seu autor (morto no estruturalismo) e recuperando seu leitor. Ao romper com o essencialismo dos estudos literários e com o absoluto da literatura que paira acima do histórico, essa tendência que se apresenta há mais de uma década embaralha concomitantemente a fronteira limitadora onde a literatura esteve confinada – sobretudo a partir da segunda metade do século XIX – rearranjando-a no interior dos outros domínios, em seu valor de conhecimento.

Nessa tendência surge a revista A Palo Seco, em 2009. Filosofia e a literatura como lugares de manifestação do conhecimento voltam a avizinhar-se, na sua ambiguidade e ambivalência que sempre caracterizaram sua relação. A literatura como um leque de experiências singulares e transformadoras, que mesmo avessa aos a priori da dimensão englobante do conceito e de categorias sistematizadoras do pensamento, irá participar da elaboração ou da constante reelaboração destes últimos.

Feita essa pequena introdução do contexto geral do surgimento de A Palo Seco, apresentamos o seu primeiro artigo, de autoria de Paulo Marchelli, que irá transitar pela história da filosofia, tendo como ponto de partida o pensador pré-socrático, Anaximandro – séculos VII-VI a. C. . O autor aponta esse pen- sador em sua afinidade com os demais pré-socráticos e com os sofistas, no tocante ao alargamento da forma de exposição do pensamento – até então exclusivamente de pertencimento da escrita versificada, tal como aquela de Homero e Hesíodo – para o domínio da prosa. A expansão das formas de exposição do pensamento, conforme lembra o autor, tem como resultado a palaià diaphorá, uma querela que dá início a uma cisão entre poesia e prosa, com consequências posteriores, na condenação dos poetas, por Platão. Revisitando alguns autores na sua preferência pela prosa ou pelo verso para a expressão de seu pensamento, Marchelli pretende depreender os elementos que concorreriam para essa escolha.

Essas duas formas de expressão de pensamento, sejam mais literárias, quando amparadas pela poesia, sejam elas mais filosófica, na escolha pela prosa, encontram seu desenvolvimento e adequação na modernidade das Luzes e do Romantismo. Nesta perspectiva convidamos à leitura de Nostalgia pelo Infinito: a Alternativa Romântica ao Idealismo Alemão. Sua autora, Mírian Kussumi, percorre o campo das distinções entre o idealismo e o romantismo alemão, respectivamente no que diz respeito à identidade do sujeito com o objeto em uma síntese no Eu absoluto, e o abandono dessa síntese, creditada impossível pelos românticos, mas possível de ser forjada no que estes denominarão “nostalgia pelo Infinito”. Idealis- mo e Romantismo, lembra a autora, como formas distintas de pensamento, solicitam formas igualmente diferentes de expressão. O primeiro objetivaria, acima de tudo, o alcance de um conteúdo reflexivo rumo à síntese, ao Eu absoluto. O Romantismo, concebendo a síntese como aspiração e não como finalidade, procura os meios, em um ato estético para a expressão da nostalgia do Infinito.

Em um outro registro, não mais de discussão teórica sobre ato reflexivo e ato estético do pensa- mento, apresentamos o terceiro artigo, O Mal em Machado de Assis: Conto de escola. Para a análise deste conto, o autor, João Paulo Santos Silva, destaca o mal, aí, em seu pertencimento ao domínio da moral e em seu movimento em direção ao espaço social e político, encontrando sua manifestação primeira no ensino escolar – espaço de transmissão de valores do mal moral estendido ao social, realizado em ações de grande extensão, tal como a corrupção, na narrativa de Machado.

O próximo artigo, Aspectos existencialistas em Luís da Silva: a degradação do eu na obra Angústia, de Graciliano Ramos, prossegue a abordagem literária sustentada por uma “doutrina filosófica”. As aspas devem-se ao fato de o próprio Sartre assim designar sua obra O Existencialismo é um humanismo, como tal. A angústia existencialista de Kierkegaard, sublinha a autora, Fabiana Maceno, encontrará seu desen- volvimento no Existencialismo sartriano. Porém, em uma antecipação não muito incomum na literatura, essa noção de angústia já se avizinha da filosofia, sob a forma romanesca, na década de 30, em Graciliano.

Se o terceiro e quarto artigo operacionalizam um instrumental de cunho mais filosófico para a análise de textos de natureza mais literários, o quarto artigo, O Essencialismo e outros conceitos estéticos na obra de Murilo Mendes, coloca em movimento um termo inicialmente vago, ainda não sistematizado, o “essencialismo” de Ismael Nery, pintor, em seu desenvolvimento e adensamento na matéria literária de Murilo Mendes. O autor, Rodrigo Cavelagna, fará uma abordagem de temas murilianos centrais, tais como a religião e a concepção da arte e do artista, que, segundo ele, adquirem particularidade e adensamento por estarem conjugados ao essencialismo neryniano.

O quinto artigo, O efeito de ir-realidade e a política no conto “A Fila”, de Murilo Rubião, propõe uma discussão de alguns elementos, pertencentes à primeira vista a uma literatura fantástica, da obra de Murilo Rubião. Samuel Salzbach parte do conceito de “ir-realidade” de Rancière em seu estudo sobre a “partilha do sensível”. No tocante ao fantástico de Murilo Rubião, o autor faz referência, inicialmente, ao seu sentido comum – a simples materialização do absurdo, arredio às explicações – apresentando-o logo em seguida sua complexidade, na sua constante oscilação entre o real e o irreal, em uma possível ruptura do visível, dizível e do factível. Ele lembra a refutação de Rancière à afirmação de Barthes, no tocante ao excesso de real não ser a comprovação do real, senão somente ser causa de irrealidade. O autor não faz uma aplicação mecânica do pensador francês para o estudo da obra de Rubião. Ele parte de Rancière, do excesso de ir-realidade, atravessado pela vertigem do fantástico, para dar visibilidade de uma realidade do sistema burocrático do Estado, expresso em forma narrativa, em Murilo Rubião.

O próximo texto é uma entrevista concedida por Evandro Nascimento, pesquisador das rela- ções entre literatura e filosofia, em especial dos estudos de Derrida, assim como seu tradutor, além de escritor brasileiro. A entrevista versará sobretudo sobre temas gerais contemporâneos, fechando a seção de artigos.

A segunda seção, inaugurada há alguns anos nesta revista, propõe como objetivo suprir a carên- cia de traduções de textos que transitem pela literatura e filosofia. Apresentamos, neste volume, a tra- dução do Prólogo y capítulo I de “Meditaciones sobre los Cantares”, de Teresa de Jesús, uma das grandes escritoras do século XVI espanhol, conhecido como “século de ouro”. Teresa de Jesus vai além de uma literatura mística, antecedendo um tipo de literatura que, segundo a tradutora, ainda engatinhava – a autobiografia em sua análise do “eu”. Lembra a tradutora terem sido as obras teresianas traduzidas em diversos idiomas, inclusive em português, pela Editora Loyola (editoração exclusiva de textos religiosos cristãos). No entanto, Larissa M. Raymundo ressalta que objetiva dar, em sua tradução, uma ênfase maior ao aspecto literário ao texto de Teresa de Jesús, posto que o doutrinário está claramente deline- ado na tradução da Editora Loyola.

Agradecemos a todos que participaram deste número de nossa revista, notadamente aos mem- bros do corpo editorial, aos pareceristas, aos editores e ao responsável pela digitalização de A Palo Seco, tanto no sistema de revistas da UFS quanto no site do Gefelit. Por fim, chamamos à leitura deste número e convidamos aqueles que trabalham nas esferas da filosofia e da literatura, assim como aqueles que se dedicam à tradução, a participarem de nossa revista.

 

Maria A. A. de Macedo


Texto completo:

A Palo Seco n.9 (p. 4)

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