Tradução do Prólogo e Capítulo I da obra “Meditações sobre os Cânticos”, de Teresa de Jesus

Larissa de Macedo Raymundo

Resumo


1. De Teresa de Jesus e suas meditações

Teresa de Cepeda y Ahumada, Teresa de Ávila, Teresa de Jesús, Santa Teresa. Tantos nomes para uma mulher que deixou suas marcas como reformadora e escritora. Teresa de Jesus (1515-1582) foi fundadora da Nova Ordem do Carmelo, conhecida como Carmelo Descalço. Também é considerada uma das grandes escritoras do século XVI espanhol, este conhecido como o “século de ouro”. Foi um tempo em que Espanha “reconquistou” seu território dos mouros, sob o comando dos “reis católicos”: Fernando e Isabel. Este mesmo país, mais adiante, estreitou laços com Portugal, ao fazerem parte de uma mesma coroa, e cujas navegações lhes trouxeram riquezas e terras. Além disso, esse século também é conhecido pela explosão de grandes nomes da literatura: Miguel de Cervantes, Luís de Gôngora, Lope de Vega, Juan de Encina, Juan de la Cruz.

Este último foi o braço direito de Teresa de Jesus, tanto na reforma carmelita quanto na literatura: enquanto ele está para poesia, ela, para a prosa, embora também se arriscado e incentivado suas freiras a percorrer pelos versos. Os dois, juntamente com Luis de León, fazem parte da literatura mística. Contudo, Teresa de Jesus vai além de uma mística, pois é considerada a precursora de um gênero da literatura que ainda engatinhava: a autobiografia. Segundo SÁEZ MARTÍNEZ (2015, p. 14), esse tipo de literatura é um valioso antecedente para a literatura de autoanálise. Teresa de Jesus, além de andarilha, era escritora e reformadora, seja de conventos, seja da literatura.

Conhecida por suas obras, “Livro da Vida”, “Moradas ou Castelo Interior”, “Caminho de Perfeição”, que são amplamente traduzidas nas mais diversas línguas, e retratam todo o caminho pelo qual a reforma- dora percorreu para fundar seus conventos e difundir suas experiências interiores, de oração e de êxtase. Além desses livros, há uma pequena obra, atualmente incompleta, devido ao seu histórico de retaliação, que trabalha uma meditação própria sobre o “Cântico dos Cânticos” – meditação esta que, para muitos, era considerada uma afronta aos grandes doutores da Igreja que já haviam analisado o poema bíblico, além de ser escrita por uma mulher, freira e “ruim” (SANTA TERESA DE JESUS, 2010, p. 102).

O interesse de Teresa de Jesus pelo texto bíblico começou “há pouco mais ou menos dois anos que [...] o Senhor me dá a entender [...] algo do sentido de algumas palavras” (SANTA TERESA DE JESUS, 1979, p. 334). Mas isso não seria fácil, afinal, em pleno século XVI, mulheres não tinham direito algum a uma instrução mais profunda, seja educacional ou religiosa. Muitos padres diziam à Teresa que o que estava na Bíblia não era para mulheres. E suas meditações tiveram que passar pelas mãos de seus confessores. Estes condenaram a obra de Teresa, mandando queimá-la. Por sorte, o fogo não apagou as muitas cópias que amigos fizeram. Das meditações teresianas, sobraram apenas 30 páginas. Trinta páginas suficientes para demonstrar o anseio de Teresa pelo amor de Cristo, sobretudo um amor voltado às mulheres. Teresa, então, aproveitou as imagens que há no “Cântico dos Cânticos” e lhes deu roupagem nova, ar novo. Na realidade, Teresa criou um novo “Cântico”, pois o que vemos em toda sua obra é o uso de alguns versos do poema para construir uma literatura rica em imagens, metáforas, analogias entre o ser amado e o ser amante, no caso ela e Cristo.

Assim, a obra “Meditações sobre os Cânticos” nos desperta o interesse por toda sua trama literária e seu jogo de imagens. E foi disso que nos surgiu o interesse em traduzir o prólogo e o primeiro capítulo da obra teresiana. Além disso, embora haja o reconhecimento sobre sua vida e obra, ainda há poucos estudos que intensifiquem o lado literário teresiano. De acordo com PIÑERO VALVERDE (2002), apesar de Teresa de Jesus ser, reconhecidamente, uma grande mística e mulher, ela ainda é pouco estudada como grande escritora. Teresa de Jesus foi, sim, uma grande escritora de seu tempo, apesar de seu início tardio nas letras – apenas aos 50 anos. Início tardio, sim, mas não menos frutuoso.

O que pretendemos aqui é expor mais sobre a obra de Teresa de Jesus no universo das Letras, uma vez que ela ainda é pouco divulgada na academia brasileira. Encontramos alguns pesquisadores na área de Filosofia, como o Prof. Dr. Jorge Luís Gutiérrez, de Teologia, como a Profa. Dra. Lúcia Pedrosa-Pádua, e das Letras, como a Profa. Dra. María de la Concepción Piñero Valverde. Mas o que ainda vemos é escasso, se relacionado com outros muitos pesquisadores teresianos na Espanha e em Portugal, Itália, França, Estados Unidos, por exemplo. Por isso fazemos dessa tradução de “Meditações sobre os Cânticos” uma porta de entrada para que novos pesquisadores conheçam a obra de Teresa de Jesus. Claro que não estamos tra- tando de um texto originalmente traduzido, pois, como dissemos anteriormente, as obras teresianas fo- ram traduzidas em diversos idiomas. Inclusive há uma edição, feita pela editora Loyola, para o português, de suas obras completas, considerada uma das melhores. Mas, como também dissemos, nosso objetivo é divulgar mais a literatura teresiana, e menos sua santidade, afinal, antes de ser santa, Teresa, apenas por seu simples, mas forte, nome, foi uma mulher à frente de seu tempo.


Texto completo:

A Palo Seco n.9 (p. 79)

Referências


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