A lógica do código: Spock, Sherlock e os robôs de Asimov

Beto Vianna

Resumo


A linguística, apesar do seu vocabulário interacionista, resiste em se livrar da noção de representação, recorrente nas suas mais diversas abordagens teóricas. O conceito de representação é tributário da história profunda da epistemologia ocidental e, mais recentemente, das escolas hegemônicas na filosofia da linguagem e nas ciências cognitivas. Uma consequência da aceitação do pensamento representacionista é o duplo uso do código linguístico: como marcador político (o que conta como linguístico, e quem conta como linguista) e legitimador do seu estatuto de ciência, na academia e para o público leigo. Processos ontogênicos (de desenvolvimento) e coontogênicos (interacionais) dos seres linguajantes ficam fora da análise como corolário dessas escolhas, delimitando o que é e quem está autorizado a fazer ciência da linguagem. Proponho analisar manifestações do universo ficcional como traduções ou respostas culturais à aceitação acadêmica do representacionismo, ao código como fenômeno linguístico, e à invisibilidade dos processos dinâmicos do organis- mo nas explicações tradicionais e atuais da linguagem.

PALAVRAS-CHAVE: Código linguístico. Ficção científica. Coontogenia.

 

ABSTRACT

Linguistics, despite its interactionist vocabulary, resists getting rid of the notion of representation, pervasive in many of its theoretical approaches. The concept of representation is found in the deep history of Western epistemology and, more recently, in the hegemonic schools within the philosophy of language and the cognitive sciences. One consequence of the acceptance of representationalist thinking is the dual use of the linguistic code: as a political marker (what counts as linguistic, and who counts as a linguist) and to legitimate its status as a science in the academy and for the lay public. As a corollary of these choices, ontogenetic (developmental) and coontogenic (interactional) processes of languaging beings are excluded from analysis, delimiting what is and who is allowed to do language science. I propose to analyze manifestations of the fictional universe as cultural translations of, or a response to, the academic acceptance of representationalism, the code as the sole linguistic phenomenon, and the invisibility of dynamic organism processes in current and traditional explanations of language.

KEYWORDS: Linguistic code. Science fiction. Coontogeny.


Texto completo:

A Palo Seco n.10 (p. 27)

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