“Árvore é quase bicho, e bicho é quase gente”: os caboclos da América Subtropical e um Buen Vivir alternativoI

  • Claiton Marcio da Silva
  • Delmir José Valentini
  • Samira Peruchi Moretto

Resumo

Este artigo tem por objetivo explorar uma possível aproximação entre o conceito de Buen Vivir e o modo de vida dos caboclos sul-brasileiros. Discutimos, então, como o conceito de Buen Vivir, da forma como foi concebido por intelectuais e movimentos sociais notadamente andinos, de forma mais generalista, poderia ser aplicado aos demais grupos sociais latinoamericanos muitas vezes classificados simplesmente a partir do termo populações tradicionais. Em uma análise de movimentos intelectuais como o Buen Vivir e o pós-desenvolvimentismo latinoamericano, os estudos subalternos sul-asiáticos e a abordagem sócio-antropológica brasileira dos oprimidos, é possível encontrar confluências em torno de preocupações de pesquisa e ação sobre/para populações historicamente marginalizadas, como povos indígenas, sertanejos, pescadores artesanais ou caboclos. No entanto, existem diferenças entre a condição destes grupos que, a nosso ver, não possibilitam uma simples aplicação de conceitos como Buen Vivir aos caboclos em função, principalmente, de uma intensa política de marginalização ou integração nacional que não lhes permitiu – diferente de alguns grupos quilombolas ou povos indígenas - o reconhecimento do território. Muitos dos caboclos no Oeste de Santa Catarina, não possuem acesso às terras, o que não lhes permite uma reprodução/reinvenção social de seu modo de vida, assim como não tiveram possibilidades de manutenção de sua maneira de se relacionar com o meio ambiente; diferente do que ocorreu no estado do Paraná, onde ainda existem terras comunais destinadas a estes grupos, chamados de faxinais. Por fim, questionamos uma possível “universalidade da diferença” que conceitos como Buen Vivir podem trazer em uma aplicação generalista, embora possamos considerar que uma ética do “bem viver alternativo” possa ser encontrada entre grupos caboclos, que tiveram maneiras próprias de se relacionar com o meio natura e, atualmente, mesmo integrados à sociedade urbana e nacional. A metodologia utilizada para este artigo foi a pesquisa bibliográfica relacionada à questão teórica e histórica dos caboclos, assim como o uso de fontes primárias, que agrupam livros clássicos e material de imprensa, além de uma etnografia sobre a atualidade destes grupos.
Palavras-Chave: Caboclos; Buen Vivir; Oeste Catarinense (Brasil); Meio Ambiente.

Publicado
2020-12-28